Congo, devastado pela guerra, diz a Trump: expulse os rebeldes daqui e leve os minérios

O líder de uma nação africana em guerra propôs um acordo para o presidente Trump: ajude o país a derrotar uma poderosa força rebelde e em troca garanta acesso a uma imensidão de minérios necessários para as empresas de alta tecnologia dos EUA.

Em uma carta a Trump de oito de fevereiro, Félix Tshisekedi, presidente da República Democrática do Congo (RDC), ofereceu oportunidades de mineração para o Sovereign Wealth Fund (Fundo de Riqueza Soberano), entidade que Trump havia lançado alguns dias antes.

“Sua eleição inaugurou a era de ouro para os EUA”, escreveu Tshisekedi na carta, à qual o Wall Street Journal teve acesso. “Nossa parceria proporcionaria aos EUA uma vantagem estratégica, garantindo minérios críticos como cobalto, lítio, cobre e tântalo da República Democrática do Congo.”

Em troca, Tshisekedi pediu a Trump um “pacto formal de segurança” para ajudar seu exército a derrotar o M23, grupo rebelde apoiado por Ruanda que recentemente derrotou soldados congoleses, tropas das Nações Unidas e mercenários privados e tomou cidades-chave no leste rico do Congo, em minérios.

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A carta congolesa não especificou que tipo de apoio militar deseja dos EUA. Um funcionário da Casa Branca disse que não “fornece detalhes sobre a correspondência privada do presidente”.

A oferta ocorre ao mesmo tempo em que Tshisekedi está em negociações com Erik Prince, aliado de Trump que fundou a controversa empresa militar privada então chamada Blackwater. Se as negociações forem bem-sucedidas, Prince ajudará o governo congolês a coletar e garantir impostos das operações de mineração, de acordo com autoridades congolesas e ocidentais.

Dezenas de grupos armados operam nas selvas do leste do Congo. Os últimos confrontos ainda têm ecos do genocídio de Ruanda, há 31 anos, no qual os hutus massacraram os tutsis, matando centenas de milhares. Quando as forças tutsis sob o atual presidente ruandês Paul Kagame derrotaram seus rivais hutus em 1994, muitos extremistas hutus fugiram pela fronteira para o Congo.,

Dezenas de grupos armados operam nas selvas do leste do Congo. Foto: Yannick Tylle/ Getty Images

Ruanda negou fornecer apoio militar ao M23, cujos membros são predominantemente tutsis, e diz que seu único interesse é proteger suas próprias fronteiras e sua população da perseguição no Congo.

Mas um painel de especialistas da ONU informou em dezembro que Kagame havia enviado quatro mil soldados para ajudar o M23, e tanto Ruanda quanto Uganda disputam minérios congoleses. A ONU disse que Ruanda recebeu 150 toneladas de coltan (columbita-tantalita) contrabandeado de uma mina congolesa controlada por combatentes do M23.

A proposta congolesa é uma tentativa de aproveitar a abordagem de negociador de Trump em relação à política externa e uma corrida global por recursos naturais para abastecer empresas de tecnologia americanas e gigantes automotivas. Em sua proposta, Tshisekedi previu que uma parceria com o Congo aumentaria a competitividade global dos Estados Unidos nos setores aeroespacial, automotivo, de data centers e de inteligência artificial.

O tântalo, extraído do coltan, e o cobalto são componentes críticos de smartphones e laptops e são usados pela Apple, HP e Intel, entre outras empresas americanas. O lítio é o principal componente das baterias de veículos elétricos. No ano passado, Elon Musk, executivo-chefe da Tesla e líder dos esforços de Trump para encolher o governo federal, chamou o minério de “o novo petróleo”.

Uma porta-voz de Tshisekedi confirmou a autenticidade da carta e disse que as negociações com os EUA sobre o acesso aos recursos naturais do Congo estavam em andamento. “É do interesse de ambos que empresas americanas — como Apple e Tesla — comprem minerais diretamente da fonte na RDC e desbloqueiem o motor de nossa riqueza mineral para o benefício de todo o mundo”, disse ela.

Um intermediário informal — um banqueiro que assessora empresas de mineração no país africano — enviou a carta de oferta congolesa ao gabinete de Trump, que a encaminhou ao Conselho de Segurança Nacional (NSC) da Casa Branca, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto. O NSC convidou então o intermediário a fornecer um briefing sobre a proposta, segundo a pessoa.

No dia da reunião, o Departamento do Tesouro revelou sanções contra o ministro de Estado para a Integração Regional de Ruanda, James Kabarebe, e o porta-voz do M23, Lawrence Kanyuka Kingston, por seu envolvimento no conflito do Congo. As sanções estavam em andamento muito antes de serem anunciadas, de acordo com a pessoa familiarizada com o assunto.

EUA ajudará o governo congolês a coletar e garantir impostos das operações de mineração, de acordo com autoridades congolesas e ocidentais. Foto: Liba Taylor/ Getty Images

O Departamento de Estado referiu-se ao comunicado de imprensa que sanciona os rebeldes congoleses e a autoridade ruandesa, mas não quis comentar mais.

“A RDC está interessada em fazer parceria com o governo Trump para acabar com o conflito e interromper o fluxo de minérios de sangue via Ruanda”, disse a porta-voz de Tshisekedi.

Prince ainda não assinou um contrato com o Congo. Mas seus representantes estiveram em Kinshasa, a capital do país, na semana passada para discutir seu possível papel na garantia da receita de mineração do país, de acordo com uma autoridade ocidental. Dois funcionários do governo congolês disseram que representantes do gabinete do presidente, do Ministério das Finanças e da mineradora estatal Gecamines lideram as negociações com Prince desde o mês passado.

Essas negociações ganharam força à medida que o governo congolês viu sua receita dos minérios diminuir paralelamente aos avanços militares do M23.

Sob o contrato em perspectiva, Prince ajudaria Kinshasa a reprimir a evasão fiscal de produtores e exportadores de mineração, inclusive fornecendo segurança para os coletores de impostos, de acordo com o funcionário ocidental e outra pessoa familiarizada com o assunto. Prince, ex-SEAL da Marinha, ganhou destaque e notoriedade durante a guerra do Iraque, quando sua empresa Blackwater forneceu guardas de segurança para funcionários e contratados dos EUA.

No ano passado, representantes de Erik Prince também discutiram com autoridades iemenitas um plano de trazer estrangeiros para afastar os rebeldes houthis da costa do Mar Vermelho, de acordo com autoridades iemenitas e uma pessoa familiarizada com o assunto. O esforço, que não foi aceito, teria sido reembolsado com petróleo, disse a pessoa.

Em 2004, quatro integrantes da Blackwater passaram por um posto de controle dos marines na cidade iraquiana de Fallujah e se depararam com uma emboscada insurgente. Os quatro foram mortos, desmembrados e incendiados, com dois dos corpos suspensos em uma ponte. O incidente foi um dos eventos que desencadearam a primeira batalha por Fallujah.

Três anos depois, os guardas da Blackwater mataram 14 civis iraquianos em Bagdá. Quatro dos guardas foram condenados nos EUA em 2014. Trump os perdoou em 2020.

Desde que tomou posse em janeiro, Trump fez do acesso a recursos naturais para empresas americanas uma pedra angular de sua política externa. As negociações diplomáticas americanas com o Iraque se concentraram em negociações para retomar o envio de petróleo para empresas norte-americanas que foram bloqueadas por dois anos por uma disputa entre o governo em Bagdá, as autoridades curdas e a Turquia.

Os recursos naturais também têm sido um fator-chave nas negociações do governo Trump com a Venezuela, a Ucrânia e a Rússia, ao mesmo tempo em que o presidente está de olho na Groenlândia, possessão dinamarquesa, em grande parte por causa de suas reservas de minerais de terras raras.

Escreva para Benoit Faucon em [email protected], Nicholas Bariyo em [email protected] e Alexander Ward em [email protected]

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