Por que a ‘Siri com IA’ está fazendo a Apple passar vergonha

Tim Cook, CEO da Apple. Foto: David Paul Morris/Bloomberg

“Pessoal, a situação está feia e estamos passando vergonha”. Em bom português, foi isso que o chefão da Siri, Robby Walker, disse aos seus subordinados na Apple. O clima não era dos melhores: a empresa prometeu em junho de 2024 que lançaria em breve uma nova Siri, aprimorada pela Apple Intelligence – a IA da Apple.

Inicialmente, a expectativa era de que os novos recursos fossem liberados pouco depois do lançamento da linha iPhone 16, em setembro. A data esperada era abril de 2025. Depois, passou para maio. Depois, 2026, sem se comprometer com o mês. Agora, o burburinho que corre no Silicon Valley é de que a nova geração da Siri pode só ficar pronta só lá em 2027…

É um desvio de rota e tanto para a Apple. Ao longo dos últimos anos – enquanto se tornava uma das empresas mais lucrativas da história –, a companhia cultivou uma imagem quase religiosa de excelência em seus produtos (design refinado, tecnologia sólida, lançamentos milimetricamente orquestrados) e sempre cuidou para que eles só fossem anunciados quando estivessem prontos. Não bastava “funcionar”, tinha de ser indiscernível de mágica.

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Mas, no caso da Siri com IA, foi só um truque de mágica – pelo menos até aqui. No anúncio feito em junho de 2024 na Worldwide Developers Conference (WWDC), soube-se depois, foi feito com um vídeo simulado. Sendo mais claro: a Apple Intelligence, principal estratégia para convencer usuários de iPhone a trocar seus aparelhos pela linha 16, não é muito mais do que um protótipo com sérios problemas de funcionamento.

Muita coisa deu errado. Em resumo:

  • Instabilidade e bugs: A tecnologia não estava funcionando corretamente, com relatos de que operava de forma confiável em apenas dois terços a 80% das vezes, o que não atendia aos padrões de qualidade da Apple.
  • Controle por voz: A funcionalidade que permitiria à Siri controlar aplicativos com mais precisão por meio de comandos de voz também não estava pronta.
  • Integração e desempenho: Havia preocupações internas de que executar modelos de IA mais poderosos nos dispositivos da Apple poderia sobrecarregar o hardware, exigindo uma redução no conjunto de recursos ou um desempenho mais lento em dispositivos atuais ou mais antigos.
  • Confiabilidade no mundo real: Mesmo com o uso de IA, a Siri ainda não era considerada confiável para funcionar adequadamente em situações de uso real.
  • Acesso a dados do usuário: A capacidade de a Siri acessar dados pessoais do usuário para responder a consultas de forma eficaz e precisa ainda não estava totalmente desenvolvida. Essa é uma desvantagem importante em relação a concorrentes como a Alexa, da Amazon, e pode ser um obstáculo para tornar a Siri verdadeiramente inteligente e competitiva, como mostra esta reportagem da Wired.

Ou seja: no caso da Siri com IA, os publicitários atropelaram os engenheiros.

Daí o climão naquela conversa de Robby Walker com a equipe responsável pela Siri, citado ali no começo do texto. A mistura de feedback com mea culpa aconteceu na semana retrasada.

De acordo com a Bloomberg, o executivo disse que os atrasos são “feios e embaraçosos” e que seria compreensível que a equipe envolvida estivesse se sentindo “irritada, desapontada, esgotada e envergonhada”. Os vazamentos marcaram a queda de 11% das ações da Apple naquela semana, o pior resultado para os papéis da companhia desde novembro de 2022.

iPhone 16. Divulgação/Apple

Ali, além das dúvidas a respeito de quanto apelo a Apple Intelligence pode adicionar à linha iPhone 16, pesaram contra as ações da empresa as repercussões globais das tarifas impostas por Donald Trump a produtos que os EUA importam, o que inclui iPhones – lembra da inscrição na traseira do aparelho? Designed by Apple in California/Assembled in China.

Na semana seguinte, a Siri foi tirada das mãos de John Giannandrea, responsável pela área de inteligência artificial da Apple – e então chefe de Walker. A imprensa americana noticiou que Tim Cook, CEO da Apple e sucessor de Steve Jobs no cargo, teria perdido a confiança no trabalho de Giannandrea, que fez fama desenvolvendo projetos de pesquisa por voz no Google.

A ida de Giannandrea para a Apple foi considerada, na época, um marco estratégico. Era 2018 e a Apple estava finalmente dizendo: “agora levamos inteligência artificial a sério”. Justamente por isso, o desempenho decepcionante da Siri virou não apenas um problema de produto, mas também um arranhão na reputação do próprio Giannandrea dentro da companhia – o que ajuda a entender a perda de poder.

Agora, caberá a Mike Rockwell, criador do Vision Pro, a tarefa de revitalizar a Siri e tentar a reparar a imagem da Apple – ou, quem sabe, evitar um vexame maior.

Um desafio de negócios, mas também uma questão de honra para a Apple. A Siri foi apresentada como recurso principal do iPhone 4S em outubro de 2011, três anos antes de a Amazon anunciar seu primeiro Echo com Alexa e só um dia antes da morte de Steve Jobs.

Lançada de maneira independente como um aplicativo para iPhone em 2010, a Siri foi comprada pela Apple e depois incorporada aos aparelhos. Para quem conhece de perto a história, teria sido o último negócio fechado por Steve Jobs como CEO da Apple – e talvez sua derradeira visão para a companhia.

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