Ele compôs um hit para uma banda de rock. Agora, é um dos líderes mais perigosos da Al Qaeda

A banda tuaregue de rock Tinariwen, num show na Inglaterra, em 2015. (Ian Gavan/Getty Images)

Antigamente, Iyad ag Ghali escrevia letras para uma banda de rock do coração do Saara. Fez jam sessions com os integrantes do grupo, acompanhando a batida em latões de metal e frequentava boates da África Ocidental.

O grupo, chamado Tinariwen, fez turnê mundial, ganhou um Grammy e tocou com nomes como Robert Plant, do Led Zeppelin, e Bono, do U2.           

Mais tarde, Ag Ghali se tornou o líder de um dos tentáculos mais perigosos da Al Qaeda no mundo, proibindo a música em uma faixa da África Ocidental do tamanho do Estado de Montana e comandando um exército de extremistas responsáveis por dezenas de milhares de mortes. Seus seguidores até emboscaram membros do Tinariwen – e sequestraram o guitarrista.

“Eu não podia acreditar”, disse o ex-empresário da banda, Manny Ansar, que frequentava boates com ag Ghali na capital do Mali, Bamako, há 30 anos. “Foi um grande choque quando vi imagens dele andando sobre cadáveres.”

Ag Ghali transformou a África Ocidental no principal campo de batalha onde o Ocidente e os governos locais entraram em confronto com extremistas islâmicos. Seus seis mil combatentes invadiram aldeias e lutaram contra soldados franceses, contra os Boinas Verdes americanos e contra mercenários russos.

É uma luta que ag Ghali, de cerca de 70 anos, está vencendo. Seus militantes se tornaram tão poderosos que existe o risco de que o Mali, seu país natal, ou o vizinho Burkina Faso possam se tornar a primeira nação do mundo governada pela Al Qaeda.

A jornada de Ag Ghali de promotor de World Music a senhor da guerra islâmico seguiu uma trajetória tão improvável quanto a ascensão de seus amigos de jam sessions para o cenário global.

Este relato de sua transformação baseia-se em entrevistas com ex-amigos, rebeldes tuaregues, membros e agentes da banda Tinariwen e autoridades do governo, além de relatórios da ONU, comunicações diplomáticas dos EUA e fotos atuais.

Meninos do deserto

Quando jovem, ag Ghali era primeiramente tuaregue e depois muçulmano.

Os tuaregues, grupo étnico berbere, foram romantizados no Ocidente por seus trajes e estilo de vida nômade, vagando pelo Saara com seus camelos, cabras e ovelhas, pelo que hoje é Mali, Burkina Faso, Níger, Argélia e Líbia. Eles resistiram a quase 70 anos de dominação colonial da França. Depois que o Mali conquistou a independência em 1960, os tuaregues promoveram uma rebelião (que fracassou) contra o novo governo.

Ag Ghali tinha nove anos quando seu pai, proeminente entre as famílias tuaregues, foi morto na revolta. Ag Ghali se juntou a uma legião de voluntários tuaregues, sob o patrocínio do homem forte da Líbia, Muamar Kadafi, em busca da independência do Mali. 

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Kadafi usou os tuaregues para promover suas próprias ambições geopolíticas, despachando Ag Ghali e outros para lutar contra os israelenses no Líbano e os franceses no Chade.

Na década de 1980, Kadafi pediu a Ag Ghali que supervisionasse os recrutas tuaregues em um campo perto de Trípoli, na Líbia. Entre os voluntários estavam músicos, incluindo Ibrahim ag Alhabib, cujo pai, como o de ag Ghali, havia sido morto na rebelião do Mali na década de 1960. 

Quando menino, Ag Alhabib se encantou com um cowboy que tocava violão em um faroeste exibido em um cinema improvisado no deserto. Ele fez sua primeira guitarra com uma lata de óleo, um bastão e um cabo de freio de bicicleta. Ao dominar o instrumento, ag Alhabib absorveu a música de Elvis, James Brown, a estrela do Mali, Ali Farka Touré, e músicos pop árabes. Ao redor da fogueira à noite, ag Alhabib e outros músicos tuaregues elaboraram seu próprio som de blues do deserto.

Ag Ghali via a música como uma forma de conquistar apoio para a independência tuaregue. Ele ajudou a fornecer a ag Alhabib e aos músicos guitarras elétricas e amplificadores, um local para ensaios e um palco para apresentações, contou Philippe Brix, o segundo empresário da banda.

Ag Ghali criou a letra de uma música chamada “Bismillah”, “em nome de Deus” em árabe. 

Em nome de Deus, começamos a revolução na companhia de meus irmãos.

Para expulsar os saqueadores e pisotear os inimigos,

Vamos escalar as montanhas para escapar da miséria.

Ag Ghali “entendeu o poder da música como uma ferramenta de comunicação”, disse Brix. “Foi seu golpe de mestre.” Os músicos chamaram a banda de Kel Tinariwen – Meninos do Deserto.

Pierre Boilley, acadêmico focado nos tuaregues, disse que hospedou ag Ghali em seu apartamento em Paris em 1989, onde seu convidado passava as noites bebendo uísque e planejando uma revolta de seu povo.

Ag Ghali acabou rompendo com Kadafi, que colocou sua própria agenda à frente da independência tuaregue. “Durante anos, Kadafi prometeu ajudar”, Ansar se lembra de ag Ghali dizer. “Mas ele continuava nos mandando lutar em outras guerras.”

Em junho de 1990, Ag Ghali e seus combatentes deixaram a Líbia e entraram no Mali. Atacavam postos militares durante o dia e cantavam à noite ao lado da fogueira.

Fitas cassete piratas de “Bismillah” passavam de mão em mão nos assentamentos do Mali, e a música se tornou um hino do movimento de libertação tuaregue. Era a música de ag Ghali, disse Abdallah ag Alhousseyni, guitarrista do grupo desde os primeiros dias.

“Pode-se dizer que o Tinariwen estava por trás do levante”, disse mais tarde o baixista da banda, Eyadou ag Leche, ao jornal francês Le Monde.

Após as vitórias iniciais no campo de batalha, Ag Ghali negociou uma paz em 1991, que levou ao aumento da autonomia tuaregue em relação às autoridades malianas.

Foi o início de uma aliança de duas décadas entre ag Ghali e o governo de Bamako.

Vida na cidade

Terminados os combates, o presidente do Mali, Moussa Traoré, pediu a Ansar, popular tuaregue em Bamako, que recebesse ag Ghali para um jantar.

Ansar colecionava a música tuaregue como um hobby e se deu bem com ag Ghali, que achava que o Tinariwen precisava de um agente. No ano seguinte, ag Ghali convidou Ansar a visitar o Saara argelino e o apresentou aos membros da banda, que estavam tocando guitarra em um tapete à sombra de uma árvore.

“Estou confiando esta banda a você”, Ansar se lembra da frase de ag Ghali.

Traoré foi derrubado pelos militares em 1991, em resposta ao assassinato de manifestantes pró-democracia. O novo presidente, Alpha Konaré, na esperança de manter o controle sobre os inquietos tuaregues, deu a ag Ghali uma espaçosa villa em Bamako. 

Ag Ghali convidou o fundador da Tinariwen para morar em sua casa. A banda ficava acordada até tarde ensaiando e ag Ghali cantava junto, acompanhando a batida em um latão.

O presidente Konaré pediu a ag Ghali que se juntasse a ele em viagens oficiais aos Emirados Árabes Unidos, à Argélia e a outros lugares. O rebelde do deserto começou a usar um relógio Rolex, mocassins Weston e ternos Smalto, presentes de seus anfitriões internacionais, contou Ansar.

Ag Ghali e Ansar tocavam músicas de Bob Marley enquanto iam para boates, onde ag Ghali fumava cigarros Marlboro sem parar, mas bebia apenas suco de laranja, contou Ansar.

Em 1999, um grupo de pregadores paquistaneses conservadores chegou à cidade natal de ag Ghali, Kidal, no norte do Mali, e sua vida mudou.

Abandone o Rolex

Os paquistaneses, barbudos e vestidos de branco, marcharam por Kidal, exortando os moradores a seguirem os princípios do Islã. Algumas mulheres tuaregues os vaiaram.

Ag Ghali, no entanto, ficou curioso e convidou os paquistaneses para sua casa. Nos meses seguintes, passou mais tempo orando e lendo o Alcorão. Deixou a barba crescer e começou a usar o mesmo traje branco que os pregadores.

“Estou abandonando meu Rolex e meus sapatos”, Ansar se lembrou de ag Ghali dizendo. “Não posso mais usá-los.”

A crescente atração de ag Ghali por uma versão extrema do Islã e seu amor pela música tuaregue coexistiram pacificamente por um tempo. Em 1999, no mesmo ano em que os pregadores paquistaneses chegaram à cidade, ele pediu que Ansar organizasse shows de música tuaregue, o que acabou se transformando no Festival no Deserto.

Entre os que compareceram ao primeiro festival em 2001 estava o embaixador americano no Mali, Michael Ranneberger. Ele ficou encantado com as danças tuaregues e as noites estreladas em tendas de pele de camelo, de acordo com suas lembranças escritas.

Mais tarde naquele ano, “Bismillah” apareceu no primeiro álbum do Tinariwen lançado comercialmente. Outros são creditados pela música, mas os empresários da banda disseram que ag Ghali escreveu a maior parte da letra.

Em 2003, Vicki Huddleston, então embaixadora dos EUA no Mali, organizou uma reunião com ag Ghali, parte de um esforço do governo Bush de monitorar radicais após os ataques do 11 de setembro. “Tínhamos informações de que a Al Qaeda estava prestes a abrir uma nova frente” na região, disse Huddleston, que suspeitava que ag Ghali estava por trás do movimento.

Huddleston ficou encantada com o carismático “cara bonito” usando um turbante que “fazia com que parecesse estar no papel de um tuaregue romântico”. Mas quando ele negou estar flertando com o radicalismo, ela afirmou: “Eu sabia que ele estava mentindo”.

Ag Ghali acabou renunciando ao festival de música que havia promovido. “Pare com isso”, Ansar se lembra dele dizendo. “Você está trazendo não muçulmanos para participarem de uma devassidão.”

A popularidade do festival e do Tinariwen aumentou. Em 2010, a banda se apresentou ao lado de Shakira e Alicia Keys na Copa do Mundo na África do Sul.

Em 2011, o Tinariwen lançou seu álbum vencedor do Grammy, “Tassili”, e o líder líbio Kadafi foi derrubado. Os combatentes tuaregues deixaram a Líbia e invadiram o Mali. Muitos tuaregues mais jovens se voltaram contra ag Ghali, vendo-o como um vendido que vivia no luxo e era próximo do governo do Mali. 

Marginalizado por ex-camaradas, ag Ghali fundou seu próprio grupo militante islâmico.

A implosão em câmera lenta da África Ocidental logo se seguiu.

Silenciado

O último Festival no Deserto realizado no Mali aconteceu nos arredores de Timbuktu, onde o Tinariwen dividiu o palco com Bono, da banda irlandesa U2. 

O ato final veio em 14 de janeiro de 2012. Dois dias depois, o ex-grupo rebelde tuaregue de ag Ghali iniciou uma rebelião, mais tarde tomando Timbuktu, Gao e Kidal. 

Em poucos meses, o novo grupo islâmico de ag Ghali e outra força extremista, a Al Qaeda no Magrebe Islâmico, levaram os tuaregues a recuar.

Depois de tomar Timbuktu, ag Ghali proibiu o que chamou de “música de satanás”. As mulheres foram impedidas de sair de casa sem o marido ou irmãos. A polícia religiosa chicoteava suspeitos de heresias.

“Eles instalaram a regra de que, quando um homem se juntava aos combatentes, ‘ganhava’ uma mulher”, escreveram os promotores do Tribunal Penal Internacional mais tarde. Os homens espancavam e estupravam suas novas esposas, além de outras mulheres, alegaram os promotores.

No início de 2013, os militantes de ag Ghali emboscaram músicos do Tinariwen e mantiveram o guitarrista Abdallah ag Lamida por semanas depois de pegá-lo tentando recuperar seus instrumentos.

Os EUA designaram ag Ghali como terrorista naquele ano. A França enviou tropas de combate para o Mali e, junto com soldados malianos e com o apoio logístico dos EUA e outros, expulsou os islâmicos de Timbuktu. Para ag Ghali, foi um revés, não uma perda.

Em 2017, ele atraiu vários grupos militantes ligados à Al Qaeda para uma coalizão chamada Jama’at Nusrat al-Islam wal Muslimin, que se traduz como Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos. A coalizão lançou uma nova onda de insurgência em toda a África Ocidental.

Os homens de ag Ghali apreenderam minas de ouro, roubaram o gado de aldeões e receberam dinheiro de proteção de traficantes de drogas e de pessoas. Os militantes estavam ligados a quase 2.300 incidentes violentos no Mali, Burkina Faso, Níger e outros países da África Ocidental no ano passado, deixando mais de 8.880 mortos, de acordo com o Centro Africano de Estudos Estratégicos, think tank da Universidade de Defesa Nacional do Pentágono. O centro analisa dados do Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, serviço de monitoramento sem fins lucrativos com sede nos EUA.

A coalizão militante não respondeu a um pedido de comentário.

Oficiais militares frustrados no Mali, Burkina Faso e Níger derrubaram governantes civis em uma série de golpes a partir de 2020, alegando que eram mais capazes de derrotar os insurgentes.

Os golpes derrubaram a estratégia de contrainsurgência do Ocidente na África Ocidental. Nos últimos três anos, as juntas expulsaram as forças francesas de contraterrorismo. Os governantes militares do Níger ordenaram que 1.100 soldados dos EUA saíssem do país e assumiram uma base de drones americana de US$ 110 milhões. 

O Mali expulsou uma força das Nações Unidas com 15 mil homens e contratou mercenários russos do Grupo Wagner para a segurança. Os russos foram acusados de massacrar civis, e ag Ghali buscou apoio popular opondo-se à presença de Moscou. Em julho, as forças de ag Ghali juntaram-se a um ataque tuaregue no norte do Mali que matou pelo menos 50 combatentes do Grupo Wagner, a maior perda individual da empresa na África. 

Benin, Costa do Marfim e Togo, países relativamente estáveis na costa do Golfo da Guiné, estão lutando para afastar os insurgentes que atravessam suas fronteiras do norte.

Ag Ghali, lembrando a reação ao governo de mão pesada em Timbuktu, fez algum esforço para suavizar a imagem de sua coalizão militante e assumir o governo, sugerindo a ambição de estabelecer um califado da África Ocidental.

Seus combatentes derrotaram o Estado Islâmico no Grande Saara, grupo rival que executou anciãos de aldeias e exigiu lealdade dos moradores. A proteção de ag Ghali tem um preço: em uma aldeia no centro do Mali, esse preço era de 40 vacas e 75 quilos de sorgo por ano. Em troca, seus homens resolvem questões entre caçadores, pescadores, pastores nômades e agricultores, que disputam pastagens e recursos hídricos.

“É seguro”, disse Ibrahim Cisse, líder comunitário do Mali. “Mas é uma prisão.”

A ameaça de violência nunca está afastada. Em agosto passado, os militantes de Ag Ghali mataram a tiros cerca de 600 moradores em Barsalogho, em Burkina Faso, enquanto os moradores cavavam trincheiras defensivas para tentar proteger seu assentamento, de acordo com um relatório da inteligência francesa.

Em junho, o Tribunal Penal Internacional em Haia divulgou um mandado de prisão para ag Ghali, acusando-o de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Ele continua foragido.

Em meados do ano passado, o Tinariwen se apresentou em cidades dos EUA, incluindo Boston e Los Angeles.

Escreva para Benoit Faucon em [email protected] e Michael M. Phillips em [email protected]

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