O que são anomalias magnéticas e como elas afetam a Terra?

Há, no nosso planeta, diversos locais contendo anomalias magnéticas, das mais fortes às mais fracas. Basicamente, elas são decorrentes de processos internos do manto que tornam a força do campo magnético da Terra mais fraca, deixando as regiões afetadas mais vulneráveis a ventos solares, radiação cósmica e outras interferências externas.

Para entender melhor como elas funcionam, precisamos entender como se forma o campo magnético do planeta e por que sua força varia de acordo com a região.

  • Anomalia no campo magnético da Terra atrapalha e destrói missões científicas
  • Anomalia Magnética que atinge o Brasil está no planeta há milhões de anos

Apesar de se expandir por centenas de quilômetros em direção ao espaço, o campo magnético terrestre é gerado nas profundezas do planeta. O núcleo da Terra é composto de ferro e níquel líquidos, que ficam sujeitos a pressão e temperatura exorbitantemente altas, gerando elétrons livres.


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Esses elétrons circulam o núcleo da Terra o tempo todo, gerando uma corrente elétrica que, por fim, produz o enorme campo magnético planetário — é como um dínamo colossal. Em 2023, cientistas da Universidade de Leeds descobriram uma das causas das anomalias nesse campo.

No coração da Terra, as temperaturas passam dos 5.000 ºC, e, à medida que o ferro derretido se move, seu calor flui do centro para fora, chegando ao manto, camada rochosa mais próxima da crosta terrestre.

Em algumas regiões, como abaixo do continente africano e do oceano Pacífico, o manto é mais quente, reduzindo o efeito de resfriamento do centro do planeta — e essa diferença no resfriamento torna o campo magnético mais fraco no local. Confira uma lista das principais anomalias magnéticas do planeta:

  • Anomalia Magnética do Atlântico Sul (no Brasil e América do Sul);
  • Anomalia Magnética de Bangui (na África);
  • Anomalia Magnética de Stokes (na Nova Caledônia);
  • Anomalia Magnética de Temagami (no Canadá);
  • Anomalia Magnética de Kursk (na Rússia)
  • Estrutura Vulcan (no Canadá);
  • Grande Províncias de Baixa Velocidade de Cisalhamento da África e do Pacífico (onde o manto é mais devagar e mais pronunciado);
  • Lineamento de Nova York-Alabama (nos Estados Unidos);
  • Montanha Submarina de Suiyo (no Japão);
  • Montanha de Říp (na República Tcheca);
  • Mulciber (vulcão no Mar do Norte);
  • Vulcão de Zuidwal (nos Países Baixos).

Vale lembrar que essas anomalias são causadas por movimentações no manto do planeta ou formações vulcânicas decorrentes de eventos sísmicos, como atritos tectônicos. Há algumas anomalias menores causadas, por exemplo, pelo impacto de meteoritos, cuja pressão forma metais altamente magnetizados.

Exemplos incluem Karikkoselkä, na Finlândia, Chicxulub, no México (do meteorito que aniquilou os dinossauros), e a ilha de Jabuka, neste caso uma formação vulcânica natural com magnetita ígnea na costa croata. A Lua também têm anomalias magnéticas! A mais famosa fica no lado escuro, onde há uma formação vulcânica que gera a Anomalia de Tório de Compton–Belkovich.

Consequências de uma Anomalia Magnética

Outro estudo, feito por geólogos da Universidade de Liverpool, descobriu que anomalias magnéticas como a do Atlântico Sul (AMAS), que abarca grande parte do Brasil, estão presentes na Terra há milhões de anos. Uma das funções do campo magnético que envolve o planeta é refletir partículas emitidas pelo sol, como a radiação eletromagnética — em regiões anômalas, essa proteção, que se estende pela atmosfera e chega até o espaço, é bem menos efetiva.

A Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) é o local onde o campo magnético da Terra é mais fraco, em azul (Imagem: NASA/Domínio Público)
A Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) é o local onde o campo magnético da Terra é mais fraco, em azul (Imagem: NASA/Domínio Público)

Isso quer dizer que, quando satélites passam pela área, ficam mais vulneráveis a chuvas de partículas, tendo que ser desligados ou postos em stand-by para que seus sistemas não sejam prejudicados. A AMAS, que cobre uma enorme porção da América do Sul, é o local onde o campo magnético da Terra está em sua menor força.

A anomalia afeta em especial a ionosfera, que fica acima de 100 km de altitude. Em 2016, o satélite japonês Hitomi não foi desligado ao passar pela área, e os prótons e nêutrons atirados por uma ejeção de massa coronária do sol que gerou uma nuvem magnética e afetou severamente seus sistemas, fazendo-o girar em torno do próprio eixo até se despedaçar.

O comportamento não se apresenta apenas no Atlântico — há, também, as Anomalias de Kursk, na Rússia, e de Bangui, na África Central. A AMAS acaba sendo mais importante porque satélites circulam mais pela região atlântica ou até mesmo ficam estacionários nela, e, fora as regiões das auroras boreais (cujo surgimento se dá graças a tempestades solares), é onde recebem a maior quantidade de partículas radioativas.

Em vermelho, as Anomalias de Bangui, na África, e de Kursk, na Rússia (Imagem: Michael Purucker/Domínio Público)
Em vermelho, as Anomalias de Bangui, na África, e de Kursk, na Rússia (Imagem: Michael Purucker/Domínio Público)

Na Estação Espacial Internacional (ISS), astronautas veem muito mais explosões de luz e estrelas cadentes quando passam pela anomalia atlântica, até mesmo de olhos fechados, provavelmente por seus efeitos no nervo ótico. Por isso, é de suma importância estudarmos mais sobre as anomalias magnéticas e o campo magnético da terra, que ainda são pouco conhecidas pela ciência.

A ISS tem uma sala blindada para que os astronautas se protejam de partículas e satélites podem ser desligados, mas ainda ficam sujeitos a danos e até mesmo à destruição quando não conseguimos prever tempestades solares, ejeções coronárias e outros fenômenos com antecedência. Desenvolver proteções e mecanismos de proteção fica cada vez mais importante, já que vivemos em um mundo altamente tecnológico e conectado e ficar sem satélites pode causar prejuízos de milhões ou até bilhões, fora problemas domésticos.

Aviões não são afetados porque não voam alto o suficiente para sofrer com as bizarrices magnéticas — suas bússolas podem ficar um pouco desorientadas, bem como as dos barcos, mas não o bastante para importar. Neste caso, anomalias vindas de minerais do fundo do mar, como magnetita, influenciam muito mais — cientistas estudam a extensão das mudanças sentidas por esses veículos, mas é provável que isso sirva apenas para conhecimento científico.

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